01/03/2015

O corpo e alma


É, na sua formulação literária, a melhor expressão da dualidade corpo/alma, a precariedade daquele. Leio-a no comovido texto de Álvaro Ribeiro sobre a morte de "José Régio", escrito a 14 de Maio de 1970: «Exactamente porque o seu corpo já era velho, débil e frágil, estava em perigo de ser separado da sua alma, forte, nobre e superior».
Só os que confundem alma e espírito não alcançam a dimensão do que a frase contém, a sua avassaladora pujança, a superior dignidade que a anima.

15/03/2014

A fragilidade da distância


Num comovido texto que leio este Sábado enfim de Sol no suplemento cultural Babelia do jornal espanhol El Pais, Antonio Muñoz Molina a propósito da lápide funerária de Hannah Arend (Blucher), que há anos encontrou num pequeno cemitério a duas horas de comboio de Nova York, pertencente ao Bard College, escreve um texto magnífico, que é, no aparente imediato, sobre as oficiais trasladações dos despojos daqueles que a morte veio a ilustrar, a conveniente reparação da injustiça histórica, mas é, na sua essência sentimental - e quem o escreve confessa-se sob a «fragilidade sentimental do que viaja sozinho - um poema sobre quanto o longe morrer do local onde se nasceu é «um monumento mais expressivo do que qualquer inscrição».

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Fonte da imagem: aqui

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Sobre Antonio Muñoz Molina veja-se a sua página, aqui.

19/08/2013

Forcadas

Necrópole em Forcadas. Datam do medievo. O povo julga-as muçulmanas. O não estarem todas orientadas a Nascente inculca origem não cristã. São de pequena dimensão. Para corpos pequenos. Em pedra. Para a eternidade.

15/08/2011

A Assunção de Maria e a indignação de Deus

Creio que do ponto de vista teológico a ideia da morte de Maria, mãe de Jesus, não encontra obstáculo. Há a ausência do facto histórico da sua morte, ou a inexistência de evidência que a comprove. Daí que a Igreja Católica festeje a Assunção de Nossa Senhora aos Céus, em corpo e alma, mas trasmute a sua morte numa dormência, deixando em aberto o saber se a sua subida aos Céus se deu ainda em vida ou depois disso. 
De entre os dogmas inerentes ao culto mariano - a Perpétua Virgindade, a sua Imaculada Conceição, o ser Mãe de Deus - a Assunção de Maria foi entronizado em 1950 pelo Papa Pio XII, por decreto, o mesmo da Infalibilidade Papal. Segundo o seu texto: 

« (...) declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial (...) pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

Princípio autoritário foi imposto sub poena: «a ninguém, pois, seja lícito infringir esta nossa declaração, proclamação e definição, ou temerariamente opor-se-lhe e contrariá-la. Se alguém presumir intentá-lo, saiba que incorre na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo».

14/12/2010

O florir da vida


Surgido como se de um pesadelo, não é a ideia do fim mas do findar-se, o degradante exercício de como encontrar dignidade da indignificação que nos persegue, vindas das catacumbas das ruas, pelos jardins, nos confins dos nossos lares, no mais fundo dos nossos remorsos. Só o amor nascido nas cavernas do horror consegue dar ânimo e força para que não os rejeitemos, rejeitando-nos, enforcando-nos pela cobardia de desejarmos a beleza eterna, mesmo patética. A haver decência acabava tudo antes, no tempo em que a vida nos floria.

10/04/2009

O milagre


«A vida é um estado de espírito», é uma das frases finais do filme Being There com Peter Sellers que em português ficou conhecido como Bem Vindo Mr. Chance. Vi-o hoje, uma vez mais, envolto num ambiente de paz. O grande final marca vincadamente a alma. Ao caminhar sobre as águas a personagem devolve-nos o sentido do milagre, o do desprendimento e da dádiva. Um ano depois seria a vez do actor sair desta vida. No filme despede-se de todos nós.

04/02/2009

A incapacidade


Pedem-me um prefácio a um livro. Escrevia-o esta manhã: «Como não apartar quem tira a vida alheia daquele que suprime a vida própria, aquele criminoso por haver vítima, este impune porque o crime foi, afinal, a punição, criminoso e carrasco num acto só? Como não aceitar que a incapacidade de viver possa coexistir com a incapacidade de morrer, o não saber já como viver-se ser irmã siamesa do não saber ainda como morrer?». O livro é sobre morrer, a pedido.